A morte da “Teologia Neoliberal” e o renascimento da “Teologia da Libertação”

04/07/2012 23:04

 

A morte da “Teologia Neoliberal” e o renascimento da “Teologia da Libertação”

 

 

O titulo deste artigo já aponta para uma utopia. Em pleno auge do capitalismo, que parece nunca terminar, falamos de sua morte e, por conseqüência, do causador de seu óbito: a Teologia da Libertação, que para muitos, inclusive alguns teólogos latinos-americanos, está morta há tempos.

O impeachment acontecido no último 28 de junho, em Assunção, do ex-sacerdote católico Fernando Armindo Lugo de Méndez, pode estar nos apontando para algo que vai além da soberania de um país insatisfeito com seu Chefe de Estado. O que temos neste caldo é também uma disputa teológica, ainda que esteja latente.

As causas do impeachment de Lugo ainda nos são obscuras, mas segundo os especialistas políticos, há na direita paraguaia a mão do neoliberalismo. Isto nos aponta para um pano de fundo de domínio político econômico perpetrado pelos americanos neoliberais, que desejam desarticular a união dos países latino-americanos (Brasil, Paraguai e Argentina) que compõem, com suas alianças, a principal fonte econômica por estes lados. A desarticulação deste grupo prejudica o sonho de implementação de melhoria de vida social aos pobres da América Latina.

E é quase certo que, ao agir como agiram, os inimigos de Lugo contavam com o aval norte-americano. E ainda contam. Conforme o Wikileaks revelou, a embaixada norte-americana informava a Washington, em março de 2009, que a direita preparava um “golpe democrático” contra Lugo, mediante o Parlamento. Infelizmente, não sabemos o que a embaixada dos Estados Unidos em Assunção comunicou ao seu governo depois e durante toda a maturação do golpe: Assange e Meaning estão fora de ação.[1]

 

O impeachment acontecido por aqui, com Fernando Collor, em 1992, fora um momento histórico bem distinto deste de Assunção. Collor (que está de volta!) e sua trupe confiscaram as economias da maioria dos cidadãos brasileiros. A ministra da economia – na época, Zélia Cardoso de Mello – foi uma das grandes responsáveis pela derrocada da classe média brasileira, e o que diriam os pobres à época. Evidente que os mais abastados da sociedade nada sofreram de negativo; pelo contrário, ficaram mais ricos em função da proteção política “collorida”. Longe disto se pode caracterizar o impeachment de Lugo no Paraguai.

A prudência – mesmo quando os atos internos não ameacem os países vizinhos – manda não reconhecer, de afogadilho, um governo que surge ex-abrupto, em manobra parlamentar de poucas horas. E se trata de sadia providência expressar, de imediato, o desconforto pelo processo de deposição, sem que tenha havido investigação minuciosa dos fatos alegados, e amplo direito de defesa do presidente.[2]

 

Instituições religiosas, segundo suas tradições, condenam algumas atitudes humanas, exigindeo um fardo muito além daquele que Cristo mencionou quando refutava o legalismo judaico de sua época. O pecado de Lugo, por ter assumido o compromisso com a Igreja Católica, fora ter filhos, i.e, Lugo era casado. Tal escândalo, para a Igreja, manchou a imagem de Lugo, mas não o impediu de posteriormente ter sido eleito Presidente da República, eleito pelo voto popular democrático. Quanto à Igreja, sancionou o impeachment ao celebrar uma missa a favor do novo presidente, posto sob circunstâncias suspeitas.

O bispo é um pecador, é verdade, mas menos pecador do que muitos outros prelados da Igreja. Ele, ao gerar filhos, agiu como um homem comum. Outros foram muito mais adiante nos pecados da carne — sem falar em outros deslizes, da mesma gravidade — e têm sido “compreendidos” e protegidos pela alta hierarquia da Igreja. O maior pecado de Lugo é o de defender os pobres, de retornar aos postulados da Teologia da Libertação.[3]

 

Este é o nosso maior problema, não só nos dias atuais, mas desde que a Teologia da Libertação foi posta em prática. Esta passou a ser uma grande ameaça aos interesses de domínio político econômico dos neoliberais na América Latina.

A crise de identidade não é só relativa à instituição cristã católica, mas envolve a todos nós. Se consideramos as bases da Teologia da Libertação, mesmo que seja sob exercício hermenêutico, embora transpareça, de forma bem clara, a opção de Iahweh, fica ainda assim a real possibilidade que Iahweh, nosso Deus, é a favor da liberdade dos oprimidos.

O Senhor lhe disse: Vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi suas queixas contra os opressores, prestei atenção a seus sofrimentos. E desci para livrá-los dos egípcios, para tirá-los desta terra e levá-los a uma terra fértil e espaçosa, terra que mana leite e mel, o país dos cananeus, heteus, amorreus, ferezeus, heveus e jebuseus. A queixa dos israelitas chegou até mim, e vi como os egípcios os tiranizam.[4]

 

 

Lugo nutriu a esperança de um país melhor, nos moldes da Teologia da Libertação. Mas, infelizmente, o quadro político não lhe era favorável. Ser neoliberal é confiar em si mesmo, é não estender a mão ao necessitado oprimido pelos dominantes. É afirmar que o Estado – no Antigo Testamento representado pela monarquia – não tem responsabilidades direcionadas aos pobres da terra.

A mensagem profética, pluralizada por seus personagens, homens de uma determinada época com suas convicções, nos aponta para algo em comum. Iahweh é o Deus da justiça, a opção dos pobres. Evidente que o Antigo Testamento é fruto de uma cultura e sua construção foi elaboração de séculos de grupos israelitas que buscaram o seu Deus. Porém, os cristãos adotaram os escritos do Antigo Testamento como válidos para suas vidas até os dias atuais. A libertação deveria ser inata ao cristianismo, ou não?

A Teologia Neoliberal não advoga a causa dos oprimidos. Ela deturpa a mensagem da liberdade que consta, não só no Antigo Testamento, mas ao longo de todo o cânon cristão. Desta maneira, há um conflito de teologias, um embate hermenêutico: teólogos da libertação X teólogos neoliberais. Acreditamos que a mensagem teológica que mais se adapta ao nosso contexto social latino americano é a da liberdade.

É preciso reler as entrelinhas da Teologia Neoliberal que transforma o Iahweh do Antigo Testamento numa divindade que não advoga em favor dos oprimidos, mas que permite o acúmulo de bens. Este discurso atual está diretamente relacionado ao culto a Baal (dono, marido, senhor, chuva).

Baal, divindade fenícia cultuada pelos cananeus, legitimava em seu culto o domínio do camponês pela monarquia. O culto a Baal é alicerçado num sistema tributário opressivo, no qual é retirado da “boca do camponês” e de sua família, i.e, de sua produção agrícola o tributo a ser dado ao rei.

O que a Teologia Neoliberal faz é transformar o Iahweh da libertação no Baal da opressão. Este sincretismo pós-moderno na verdade sobrepõe as características de Baal ao Iahweh da libertação. Iahweh, pela boca de muitos teólogos atuais, é deus que oprime. O discurso teológico neoliberal falseia a verdadeira identidade de Iahweh. O Deus apresentado pelo neoliberalismo é na verdade Baal, travestido de Iahweh.

Baal é a divindade que fragmenta a união, a partilha que existia dentre as tribos de Iahweh. A sociedade das montanhas em Canaã, em sua forma tribal, viveu por um tempo possuindo bens em comum. Seguir a Baal foi à ruptura desta unidade, quando o acúmulo de bens passou a ser o desejo de alguns. Hoje, séculos à frente, o que se vê é o agravamento do acúmulo legitimado pelo neoliberalismo. Em tempos de sustentabilidade,

o crescimento do número de pobres e miseráveis que em 2008 eram 860 milhões e que agora, devido à crise global, passaram a um bilhão e duzentos milhões. Muitos analistas desenham  cenários dramáticos para o próximo futuro da Terra e da Humanidade. Há uma guerra total, movida contra a Terra viva (Gaia) pelas elites mundiais e pelas megaempresas multilaterais, pela forma como produzem e acumulam, pondo em risco o  sistema-vida e o sistema-civilização. Há poucas chances para uma  paz duradoura e uma globalização solidária.[5]

 

Lugo não pode se defender de suas acusações. Só este fato já nos aponta para um “golpe de estado”. Se Lugo desejava um Paraguai mais justo, tendo como pano de fundo a Teologia da Libertação, seus planos foram impedidos por uma elite a serviço da Teologia Neoliberal que contamina a democracia e impede que os mais pobres tenham acesso a uma pequena melhora de vida antes da morte.

Nós sofremos isso com a rebelião parlamentar, empresarial e militar (com apoio estrangeiro) contra Getulio, em 1954, que o levou ao suicídio; contra Juscelino, mesmo antes de sua posse, e, em duas ocasiões, durante seu mandato. Todas foram debeladas. A conspiração se repetiu com Jânio, e com Jango — deposto pela aliança golpista civil e militar, patrocinada por Washington, em 1964.[6]

  

Lá em Assunção, como aqui, em Brasília, temos políticos a serviço desta teologia neoliberal, muitos dos quais rotulados evangélicos. Aliás, a história política do Brasil nos revela que parte dos nossos políticos sempre fora vassalos do neoliberalismo. Em tempos de eleições, cabe rememorar tais fatos e abrir os olhos para os nossos vizinhos. Se temos hoje um pouco de liberdade de expressão, conseguida a duras penas de nossos antepassados, não podemos nos iludir: o neoliberalismo, aqui teológico também, não morreu, mas busca tragar o entendimento afirmando que quem está morta é a Teologia da Libertação.

Para aqueles que saíram da caverna, que nunca mais retornem a ela.

 

Lucio Avellar 

           



[1] Retirado do site:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/26/o-golpe-em-assuncao-e-a-triplice-fronteira/

Acessado em 02/07/2012 às 17h 36min. Artigo de Mauro Santayana.

[2] Ibidem.

[3] Ibidem.

[4] Bíblia do Peregrino. Êx. 3.7-9.

[5] Retirado do site:

http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2012/07/01/que-podemos-esperar-depois-da-rio20/

Acessado em 02/07/2012 às 20h 06min. Artigo de Leonardo Boff.

[6] Retirado do site:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/26/o-golpe-em-assuncao-e-a-triplice-fronteira/

Em 02/07/2012 às 20h 14min. Artigo de Mauro Santayana.

 

 

Tópico: A morte da “Teologia Neoliberal” e o renascimento da “Teologia da Libertação”

Nenhum comentário foi encontrado.

Novo comentário