BREVE COMENTÁRIO SOBRE AT0S 20-25

05/07/2011 12:39

Antes de tratar especificamente destes cinco capítulos de Atos, penso ser importante apresentar, de forma bastante resumida, um retrato do livro inteiro[1]. Vale relacionar, por exemplo, Atos e o Evangelho de Lucas: este encontra seu desfecho nos Atos dos Apóstolos, enquanto que os Atos dos Apóstolos só se compreendem no prolongamento do Evangelho de Lucas. Até a estrutura do livro aponta para esse fato; a proposta de expansão missionária de Lc 24.46-49 e de At 1.8 é delineada ao longo do livro: Atos inicia em Jerusalém (1.15-8.3), alcança Samaria e a Região Costeira (8.4-11.18), chega a Antioquia, lugar onde os discípulos recebem, pela primeira vez, o nome de cristãos (11.19-15.35), se expande para as terras vizinhas ao Mar Egeu: Macedônia, Filipos, Tessalônica, Beréia, Grécia e Éfeso (15.36-19.20), e finalmente atinge o objetivo principal do livro (e também do apóstolo Paulo): Roma, a capital do Império (19.21-28.31).

 

Atos possui um objetivo duplo: busca falar a respeito da época apostólica tanto para edificar os cristãos como para conquistar os “pagãos” (isto é, os não-judeus). Atos edifica a igreja nascente na medida em que anuncia a promessa do derramamento do Espírito e o seu cumprimento logo no início da história cristã como o evento que autentica a missão dos apóstolos. Na verdade, é o Espírito Santo o autor principal dos Atos: Ele é o responsável pela expansão da igreja e seus discípulos se consideram seus colaboradores (At 5.32 e 15.28). O livro também descreve a vida em comunidade e o resultado evangelístico dessa vida (“a cada dia o Senhor acrescentava os que iam sendo salvos”). O outro objetivo – conquistar os “pagãos” – revela-se no surgimento de personagens não-judeus que são alvos da salvação em Cristo pregada pelos apóstolos (At 2.7-11; 8.26-39; 10 etc.). Um fato transparece: a ampliação do território da missão (Jerusalém até Roma) revela também a pregação aos judeus até a auto-exclusão destes mesmos judeus da salvação trazida por Deus – At 28.28-31 – “os gentios ouvirão!”.

 

A intenção, portanto, é descrever a atividade de Deus em Cristo e na força do Seu Espírito Santo, que é orientada para a salvação de toda a humanidade. ASSIM, O TEMPO ENTRE O PENTECOSTES E A PARUSÍA É TEMPO PARA A EVANGELIZAÇÃO DO MUNDO (At 1.6-8).

 

Cada livro e carta do NT possui objetivos literários e teológicos específicos. O NT não foi escrito como mero exercício intelectual ou abstrato; antes, responde a questões cruciais vivenciadas pelas comunidades cristãs às quais cada livro era endereçado. Nesse sentido, Atos não é diferente. Sua escrita busca responder a alguns problemas e crises experimentadas pelos cristãos da época. Que problemas eram esses? Lucas escreve para uma comunidade de cristãos judeus e não-judeus que está enfrentando quatro tipos de problemas ou desafios:

 

1.       O problema da comunidade de mesa

Comer com alguém no mundo oriental antigo representava muito mais do que partilhar apenas uma refeição com amigos. Na verdade, comer junto (comunhão) demonstrava união de vidas, histórias e propósitos. Significava partilhar a vida em comum. Para os judeus, comer com pagãos (ainda que convertidos) era um desafio, pois isto era contrário à Lei e os punha em contradição com seus preceitos mais antigos (preconceitos). O próprio Jesus foi alvo destes preconceitos: os judeus religiosos o chamavam de “amigo de pecadores”, pois Ele comia com pessoas daquela categoria (publicanos, prostitutas, párias sociais etc.). Esta crise transparece na comunidade cristã primitiva. Por exemplo, o problema central da ação de Pedro em Atos 10-11 não é tanto sua pregação aos gentios, mas sim o fato dele ter “entrado em casa de homens incircuncisos” e ter comido com gentios (At 11.3). Lucas deseja afirmar esse costume de comer juntos, na mesma mesa, como parte integrante de seu evangelho.

 

2.       O problema do relacionamento entre judeus e cristãos.

Outro problema estava relacionado à questão: era possível ser cristão e judeu? Era um problema real pois os judeus cristãos estavam sendo rejeitados pelo seu povo e expulsos das sinagogas. Como este momento marca o início da divisão entre judaísmo e cristianismo, os judeus-cristãos sentem-se traidores do seu próprio povo. Por isso, tanto no Evangelho como em Atos, Lucas procura estabelecer o valor da lei e dos costumes e ritos judaicos como compatíveis com a fé cristã: os crentes são também zelosos da lei (At 21.20); Paulo foi um observante da lei durante toda a vida (24.14)[2]. Para Lucas, os grandes traidores são, na verdade, os chefes de Israel, que constantemente se levantaram contra Jesus e também contra Paulo e a igreja (ver Lc 24.19-20 e At 7.51-53).

 

3.       O problema do relacionamento entre cristãos e o Império Romano.

Este problema se resume na pergunta: era possível ser cristão e fiel ao Império Romano ao mesmo tempo? Tudo indica que na comunidade de Lucas existem integrantes ou simpatizantes do império. Para esses, aceitar uma fé que tinha como proclamador Paulo (acusado muitas vezes de ser subversivo), era mal visto. Por isso, surgia a dúvida: para ser cristão seria necessário romper com o império romano? Para responder a isso, Lucas apresenta uma visão bem favorável dos romanos em suas obras (Lucas e Atos). Por exemplo: toda a culpa da morte de Jesus é atribuída aos judeus, não aos romanos (At 3.13); todas as vezes que aparece um representante do Império Romano no livro de Atos, seu procedimento é positivo[3]; por outro lado, todas as vezes em que a ordem pública é perturbada, os culpados são os judeus. Curiosamente, o martírio de Paulo em Roma não é mencionado ou predito, mas seu discurso de despedida em At 20.17-35 é marcado por presságios de perseguição, cadeias e tribulações que lhe ocorrerão em Jerusalém. Além disso, sempre que possível, Paulo ostenta seu título de cidadão romano. Essa valorização da presença romana nos textos lucanos ocorre porque, além de existirem integrantes do império romano na comunidade cristã, Lucas escreve numa época em que o império romano ainda não tinha consciência de seu imperialismo. Oficialmente, Roma ainda respeita a liberdade de todas as nações. Não existe perseguição movida contra cristãos por parte do império. Além disso, a educação de Lucas é da elite do mundo romano. Ele teme um mundo sem a segurança promovida por Roma. Contudo, vale observar que Lucas NÃO capitulou diante do império romano. Pelo contrário, sempre que o império surge, ele se prostra diante dos cristãos. A conclusão é que Roma favorece a evangelização enquanto os cristãos nada oferecem ao império em compensação. Cristo usa o império, mas o império não usa a Cristo.

 

4.       O problema do relacionamento entre ricos e pobres.

Finalmente, o último problema que é abordado por Lucas diz respeito às relações sócio-econômicas entre os cristãos. Talvez, este seja o principal dos problemas. É uma questão importante pois a pirâmide social na época de Atos estabelece uma enorme e injusta diferença entre os mais ricos e os mais pobres. Compondo a classe alta, estão os senadores romanos (1000 famílias para um império de 50 milhões, recebendo um salário médio de 400000 denários); os cavaleiros (50000 no total) e os decuriões (5% da população do império). Já na classe mais baixa, estão os mendigos, cegos, aleijados, mulheres e crianças abandonadas, as viúvas, os “biscateiros” (que trabalhavam apenas quando havia oportunidades), e os maus pagadores (que não podiam pagar suas dívidas e tornavam-se semi-escravos). Os pobres sempre foram presença constante no evangelho de Lucas. Curiosamente, a expressão “pobres” encontra-se quase inexistente em Atos. E a teologia lucana explica o porquê: em Atos não se fala mais em pobres porque não existem mais pobres na comunidade cristã (At 4.34); a presença da igreja cristã faz com que não haja mais necessitados na sociedade.

 

Abordagem teológica do ministério de Paulo em Atos 20-25

É a partir desse pano-de-fundo social, histórico e teológico é que se torna possível alinhavar alguns temas importantes dentro desse espaço de Atos 20-25.

 

1. O momento de maior importância para a comunidade cristã nos textos de Atos é a eucaristia – o partir do pão (20.7). Aliás, esse é um dos mais antigos textos que mostra a eucaristia sendo praticada no domingo (primeiro dia da semana). E é interessante perceber que nem mesmo um milagre de ressurreição (do jovem Êutico, apresentado em 20.9-10) é razão para impedir que a pregação e a ceia sejam praticadas pela comunidade (20.7, 11). É como se, para Lucas, o milagre não fosse o centro do ministério de Paulo, mas sim sua pregação a respeito de Jesus e a comunhão entre os irmãos daquela comunidade. O milagre – que obviamente traz conforto aos cristãos (20.12) – não é o aspecto principal do texto e nem é “espetacularizado”. Contudo, também é importante ressaltar que a liturgia cristã de Paulo abre espaço para atender à necessidade do outro; em outras palavras, o culto cristão em Atos não é mecânico, limitado, rígido ou dissociado da vida e de suas crises.

 

2. O discurso de despedida de Paulo, registrado em Atos 20, é fundamentalmente importante na teologia do livro inteiro. Pois é graças a esse discurso que Lucas informa as preocupações do apóstolo em relação às igrejas já evangelizadas, tanto na continuidade do passado recente, como na perspectiva do futuro. É por isso que essas palavras de Paulo são dirigidas aos presbíteros, isto é, àqueles que mais diretamente seriam os responsáveis pela manutenção da comunidade cristã após a morte do apóstolo.

 

3. Dentro desse discurso, há uma menção muito clara em relação ao papel do líder na igreja cristã. E vale observar que a descrição de Paulo do que deveria ser um líder na igreja é claramente diferente da estabelecida em muitas igrejas e denominações atualmente. Nestas, o líder é alguém hierarquicamente posicionado, acima de tudo e todos; um ser inatingível e inalcançável, um sacerdote (com todas as características do sacerdócio do Antigo Testamento), elevado ao topo de uma pirâmide eclesiástica, e de alguma forma diferente dos outros e outras que compõem “sua” igreja. Para Paulo, contudo, o verdadeiro líder é aquele que não considera sua própria vida como preciosa, caso isto se torne um impecilho ao anúncio do evangelho da graça de Deus (20.24); é também aquele que não se isola em sua liderança ministerial, mas que cuida do próximo e é cuidado por ele (20.28a); é alguém que se reconhece como guardião de uma igreja que não é sua, mas que, antes, foi comprada por Deus com seu próprio sangue (20.28b). O verdadeiro líder, de acordo com Paulo, é um pastor que, vigilante, sabe proteger as ovelhas dos lobos vorazes, ainda que às custas de muitas lágrimas e esforço (20.28-31); é aquele que confia na graça de Cristo, plenamente capaz de edificar e santificar todos os cristãos (20.32). Por fim, o líder, segundo o apóstolo, não se utiliza de suas ovelhas[4], não é ganancioso, não busca ouro, prata ou vestes de outros, mas antes trabalha com as próprias mãos para não ser pesado a ninguém e para comprovar, na prática, as palavras de Jesus: “Há mais felicidade em dar do que receber”.

 

4. O discurso de despedida de Paulo é um anúncio do que lhe ocorrerá num futuro próximo: o martírio. Paulo nunca mais iria ver o rosto dos irmãos daquela comunidade (20.25). De fato, inúmeras vezes no texto surgem palavras de alerta ao apóstolo sobre os perigos e perseguições que irá sofrer, caso continue firme em seu propósito de viajar até Jerusalém. Mas nem mesmo a palavra de um profeta – Ágabo (21.10-11) – pode dissuadir Paulo de enfrentar seu sofrimento e cumprir a vontade do Senhor para sua vida (21.13-14). Fica claro o paralelo entre Paulo e o próprio Jesus: se no evangelho lucano Jesus alertou seus discípulos sobre sua morte em Jerusalém como vontade divina (Lc 9.22; Lc 13.33-35; Lc 18.31-34), em Atos, Paulo reconhece que tudo o que lhe iria acontecer na Cidade Santa é igualmente desejo de Deus.

 

5. Também é interessante notar que as perseguições que Paulo irá sofrer ocorrerão por causa dos judeus de Jerusalém (20.22-23), e não devido aos romanos. Como já foi dito acima, o Império Romano é apresentado como um elemento de estabilidade social e religiosa. Paulo é protegido pelo império, quase na mesma medida em que é maltratado por seus conterrâneos judeus.

 

6. Quando Paulo se apresenta à igreja de Jerusalém, uma situação curiosa se desenvolve: os líderes da igreja ignoram quase que inteiramente o relato do ministério de Paulo entre os gentios, e se limitam a avisar o apóstolo das acusações que lhe são feitas (21.19-20). Paulo é visto como alguém que ensina e pratica a apostasia de Moisés e da Lei, e, por isso, deve demonstrar, através do cumprimento de um rito judaico, sua ligação com o Templo e a Lei mosaica (21.23-24). Outro detalhe curioso é que em nenhum momento do relato é citada a coleta de dinheiro que Paulo estaria levando aos pobres da igreja de Jerusalém. Isso é estranho, já que a principal razão da viagem de Paulo à Jerusalém foi a distribuição das ofertas levantadas entre as igrejas gentias para os necessitados entre os judeus (ver Rm 15.25-28; I Co 16.1-4; II Co 8-9). O desejo de Paulo em entregar esta oferta é tão intenso que ele não recusa enfrentar seu possível e provável martírio na Cidade Santa. É a entrega desta coleta que justificava, para Paulo, a viagem à Jerusalém. Por que, então, este assunto não é sequer lembrado no texto? Uma possível resposta estaria no fato de que os líderes da igreja em Jerusalém não aceitaram esta oferta gentia, por razões de pureza. Para Paulo, esta recusa representava uma não-aceitação das igrejas gentias nascidas sob seu ministério. É como se entre a igreja de Jerusalém e as igrejas irmãs das outras nações se estabelecesse um abismo de divisão. O que fazer, então, com o dinheiro coletado? A proposta feita a Paulo é que ele utilize parte desse dinheiro para pagar as despesas cerimoniais do voto de nazireato de quatro judeus pobres que não tinham como fazê-lo. Pagar um voto desses era muito caro, pois era necessário oferecer sacrifícios no Templo muito caros. Geralmente, os pobres nunca podiam pagá-lo. Assim, era visto como obra de grande piedade que um rico pagasse as despesas desse voto das pessoas mais pobres. Aqui é preciso se questionar sobre as razões que levaram Paulo a aceitar essa proposta dos líderes da igreja de Jerusalém. Alguns autores entendem que esta prática demonstra o amor de Paulo pelos seus conterrâneos judeus, uma vez que ele não hesita em participar de uma dissimulação e nem de usar o dinheiro que seria para os necessitados da igreja de Jerusalém para atender a um fim legalista e ritualista. Outra explicação possível, contudo, está no fato já aludido de que, provavelmente, os líderes da igreja de Jerusalém não quiseram aceitar a oferta trazida por Paulo. Pagar o voto de nazireu era, de alguma forma, reabilitar o dinheiro pagão aos olhos dos judeus. Afinal, se esse dinheiro servia em parte para praticar obras de piedade tipicamente judaicas, talvez o resto dele pudesse ser recebido pelos membros da igreja de Jerusalém sem contaminá-los.

 

7. A oferta no Templo de Jerusalém produz resultados desastrosos. Paulo é acusado de duas maneiras: a) ele é responsabilizado em atacar a fé judaica, a Lei e a liturgia dos judeus; e b) ele é acusado de violar a santidade do templo introduzindo no lugar reservado aos judeus um cidadão grego (21.28). O que se segue é novamente uma demonstração da recusa dos judeus em aceitar a mensagem do evangelho de Cristo, pregada por Paulo, e da ordem e manutenção da paz que o Império Romano estabelece. Na verdade, este é um tema que irá se repetir até o final do livro: os judeus recusaram a mensagem; não se renderam a Cristo, e, por isso, a palavra será destinada aos gentios (que, aliás, são os destinatários do livro de Atos). Ver, por exemplo, At 22.21-22; 23.11-22; 28.16-31.

 

8. Atos, por fim, alcança seu objetivo final: levar Paulo à Roma, capital do império. Cumpre-se, aqui, o roteiro estabelecido no evangelho de Lucas – de Jerusalém à Roma. Tudo o que ocorre após a prisão de Paulo tem esse objetivo: conduzir o apóstolo a anunciar a mensagem, não apenas aos judeus (que recusam), mas também a todos os povos.



[1] A este respeito, ver o excelente comentário de José Comblin: COMBLIN, José. Atos dos apóstolos: vol. I:1-12. Petrópolis: Vozes, 1988.214 p.

[2] Por exemplo: Paulo freqüentava a sinagoga (At 13.14); impõe a circuncisão a Timóteo (16.1-3); faz voto de nazireu (18.18 e 21.24), etc.

[3] Ver, por exemplo, o centurião Cornélio (At 10); o procônsul Sérgio Paulo (At 13.13); o carcereiro de Filipos, ligado à instituição romana (16.30-34); o procônsul Gálio (18.16); um comandante romano (23.10); o rei Agripa (26.31-32).

[4] Este tema é amplamente desenvolvido nos profetas do AT bem como em outros textos do NT. No caso do AT, vale citar a conhecida passagem de Ezequiel 34.1-16: “Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! (...) não apascentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligaste, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes, mas dominais sobre elas com rigor e dureza. (...)”

 

 

Autor: Marcio Simão de Vasconcellos

Tópico: BREVE COMENTÁRIO SOBRE AT0S 20-25

John

Data: 12/03/2017 | De: Smithb918

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breve comentário sobre Atos 20-25

Data: 20/11/2011 | De: Liana Costa

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