ENCAIXOTANDO DEUS

19/03/2011 18:26

 

Gosto de visitar livrarias e sebos, especialmente estes últimos. A emoção de se descobrir, bem escondido no meio de diversos livros, alguma preciosidade literária (e com bom preço!) é algo que constantemente me atrai a esses lugares. Às vezes, dá para encontrar até aqueles livros já esgotados, contudo indispensáveis em qualquer biblioteca que se preza.

Outro dia, encontrei num desses sebos uma edição completa da Suma Teológica, de Tomás de Aquino. Escrita entre 1265 a 1273, a Suma é uma coletânea de comentários teológicos a respeito de praticamente todos os assuntos que alguém possa imaginar. São mais de 500 questões, 2669 capítulos e quase um milhão e meio de palavras. E haja palavras! Olhando para a Suma, tem-se a impressão (correta, talvez) de que Tomás de Aquino foi o teólogo que mais escreveu na história do cristianismo!

Não comprei a Suma (fica para uma outra vez...), mas aquela obra me fez refletir sobre nossas teologias sistemáticas. Como são grandes! Eloqüentes! Freqüentemente, causadoras de dores na coluna daqueles que as carregam por aí. São muitos assuntos, inúmeros temas, quase obsessivamente contabilizados, catalogados e impressos, à tinta, em resmas e resmas de papel. Observar, ainda que de longe, esses tratados teológicos produzem uma sensação de azia no estômago de qualquer seminarista de 1º período que deseja se aventurar em lê-los. São obras fantásticas, a bem da verdade, mas também um tanto pretensiosas.

Essa pretensão, na verdade, é o problema. No afã de se dizer tudo sobre Deus, pensa-se que realmente se disse tudo sobre Deus. E isso é infinitamente impossível. Deus não pode ser catalogado (nem mesmo pela Suma de Aquino), definido, limitado às palavras de teólogos, ainda que sejam brilhantes. Deus não pode ser encaixotado. Paul Tillich disse, certa vez, que Deus não pode ser enquadrado pela teologia porque, afinal de contas, o Infinito não pode ser descrito pelo finito. Assim, "identificar Deus com o nosso discurso é idolatria". Partindo daí, Tillich faz sua maravilhosa afirmativa: "Deus é símbolo para Deus". Isto é, o nome Deus (e tudo o que indicamos com esse nome) não é o Ser de Deus; este permanece inacessível, sempre. E quando falamos sobre Deus, Ele não se esgota em nossas palavras. Aliás, precisamos ser justos com Aquino: o Doutor também disse que "Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra".

Tudo muito interessante, mas essas frases me parecem, na prática, não muito atuantes. Subjaz em muito de nossa prática teológica um desejo arrogante de domesticar o Sagrado, de vestir Deus com nossas roupas hermenêuticas. Vale perceber que essa prática já era realidade para a teologia judaica na época de Jesus. Os fariseus fizeram a mesma coisa: Jesus cura seres humanos nos sábados de descanso, e a conclusão imediata dos religiosos é: "Este homem não é de Deus, porque não guarda o Sábado!" (Jo 9.16). Na visão deles, Deus estava cerceado pelas interpretações farisaicas da Sua Palavra.

Ao pensar sobre isto, lembrei-me de um belíssimo texto de Rubem Alves, que apresento a seguir. Sua leitura vale muito a pena!


SOBRE DEUS - RUBEM ALVES

"Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos, os homens têm sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais. Disseram que ele tem uma câmara de torturas chamada inferno onde coloca aqueles que lhe desobedecem, por toda a eternidade, e ri de felicidade contemplando o sofrimento sem remédio dos infelizes.

Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.

Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: "Vou cantar para fazer o sol nascer". Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhoso, disse: "Eu não disse?". Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.

Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias. Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.

Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar! Que cenários fantásticos estão no seu fundo, longe dos olhos! Para sempre incognoscível! Pense no mar como uma metáfora de Deus. Se tiver dificuldades leia a Cecília Meireles, Mar Absoluto. Faz tempo que, para pensar sobre Deus, eu não leio teólogos; leio os poetas. Pense em Deus como um oceano de vida e bondade que nos cerca. Romain Rolland descrevia seu sentimento religioso como um "sentimento religioso". Mas o mar, cheio de vida, é incontrolável. Algumas pessoas têm a ilusão que é possível engarrafar Deus. Quem tem Deus engarrafado tem o poder. Como na estória de Aladim e a lâmpada mágica. Nesse Deus eu não acredito. Não tenho respeito por um Deus que se deixa engarrafar. Prefiro o mistério do mar... Algumas pessoas não gostam do que penso sobre Deus porque elas deixam de acreditar que suas garrafas religiosas contenham Deus..."

Marcio Simão de Vasconcellos

Tópico: ENCAIXOTANDO DEUS

Observações

Data: 13/06/2016 | De: Wesley M. Melo

Muito Bom!

Gostaria de parabeniza-lo Professor pelo texto. Muito fui abençoado. Obrigado.

Re:Observações

Data: 15/07/2016 | De: Marcio

Obrigado, Wesley! E obrigado pela visita ao site! Sinta-se sempre bem-vindo!

Pensei o mesmo

Data: 11/08/2014 | De: José Carlos Bastos

Este dias me veio o mesmo pensamento, de como os homens têm tentado encaixotar Deus para o seu próprio consumo. Houve um filme na década de 90, chamado "Encaixotando Helena", sobre um assassino que coloca a sua vítima em pedaços dentro de uma caixa, mas Deus não está morto e não se deixará encaixotar ou engarrafar. Glória a Deus.

Re:Pensei o mesmo

Data: 29/03/2015 | De: Marcio Simão

Verdade, José Carlos. Boa lembrança desse filme. Acho que sempre que se deseja encaixotar Deus o resultado é um deus em pedaços que, justamente por isso, não é o Deus de Jesus.

Grande abraço!

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