Sobre Deus, feminismo e teologia

08/03/2016 12:40

Sobre Deus, feminismo e teologia

Marcio Simão de Vasconcellos[1]

 

Num de seus livros, o teólogo belga Adolphe Gesché faz uma pergunta que é central ao cristianismo que proclamamos. Gesché questiona: Será que faremos de Deus uma boa notícia para o mundo? Essa pergunta implica na possibilidade contrária, isto é, na escolha de se fazer de Deus um instrumento de opressão, uma má notícia. Parece, portanto, que no âmbito da religião (inclusive a cristã) a palavra “Deus” recebe matizes diversas, elaboradas a partir do fiel que deseja relacionar-se com Ele. Dito de outra forma: o evangelho só pode ser considerado uma boa notícia se o Deus, que nele é proclamado, é o mesmo anunciado por Jesus de Nazaré. Caso contrário – se pregamos um ídolo no lugar do Deus verdadeiro – então nossa prática religiosa irá gerar opressão, exclusão e morte. Por nossa causa, Deus não será apresentado como boa notícia aos homens e mulheres de nosso tempo. “Deus” será um mecanismo de destruição da vida!

 

Esta questão torna-se essencialmente importante quando pensamos nas relações de gênero. Na história do cristianismo, as mulheres sofreram (e sofrem!) discriminações em maior ou menor grau. Uma imagem torta de Deus gerou perseguições e rebaixamentos impostos à mulher que, supostamente, não teria a mesma dignidade que o homem. Mesmo afirmando que o ser humano, homem e mulher, foram criados à imagem de Deus, não faltaram vezes em que a teologia cristã se expressou em termos bastante preconceituosos. Veja, por exemplo, algumas citações de teólogos cristãos do período da Patrística:

Mulher, foi você quem abriu a porta para o demônio... foi você quem persuadiu o homem a quem o diabo não foi suficientemente forte para atacar. De uma forma tão simples você destruiu a imagem de Deus, o homem. Por causa da sua comida, isto é, a morte, até o Filho de Deus teve que morrer. (Tertuliano)

Adão foi seduzido ao pecado por Eva e não Eva por Adão. É justo e correto que a mulher aceite como Senhor e Mestre aquele a quem ela levou ao pecado. (Ambrósio)

Entre todas as bestas selvagens não se pode encontrar nenhuma tão perigosa quanto a mulher. (Crisóstomo)[2]

 

Essa leitura patriarcal da Bíblia acompanhou o desenvolvimento do cristianismo ao longo dos séculos. Por meio dela, mulheres foram rebaixadas, inseridas numa hierarquia na qual Deus aparece no topo da pirâmide, o homem-macho logo a seguir, e a mulher e os filhos disputam espaço em sua base. Tal lógica desumana permanece presente em nossas sociedades do século XXI. O que surge daí é um sistema opressor que se auto-justifica por meio de hermenêuticas tortas do texto bíblico, e que naturaliza as injustiças sócio-econômicas, religiosas, moralistas, sexuais e violentas contra as mulheres. Sim, porque nesse universo pintado com as cores do cristianismo, mulheres são estupradas, violentadas, despidas de sua dignidade e culpadas por aquilo que sofrem nas maõs do "cristão-macho". Afinal, dizem estes homens de deus-ídolo, essas mulheres não deveriam ter saído de casa com uma roupa dessas, não deveriam ter saído de casa nesse horário, não deveriam ter saído de casa. Discursos desumanos de gente igualmente desumana!

 

Na tentativa de criticar esses posicionamentos, e na esteira do desenvolvimento da Teologia da Libertação latino-americana, com sua preocupação em dar voz aos oprimidos do ponto de vista sócio-econômico, a TEOLOGIA FEMINISTA foi sendo gestada. O contexto dessa teologia são os movimentos feministas de meados do século XX que buscavam a igualdade dos gêneros em questões sociais e de exercício de direitos civis. Mais que isso: a teologia feminista busca enxergar a mulher como ser que vivencia uma realidade própria, diferente da do homem, em sua relação com o mundo e com o próprio Deus. Começou-se, portanto, a valorizar a mulher pela sua feminilidade, vista não mais como doença, praga ou ameaça a ser vencida, mas como criação de Deus e lente específica para ver a realidade, inclusive a da fé. Em outras palavras, a teologia feminista procurava dar destaque à maneira da mulher ver o mundo; uma maneira distinta da do homem, não superior ou inferior, apenas diferente e, justamente por isso, complementar.

Isso mudaria o curso da teologia e da sua antropologia. A compreensão da mulher e de seu papel no mundo e na Igreja se orientaria pela experiência que as mulheres fazem de sua realidade feminina e não pela experiência que o homem-varão faz de si mesmo. A teologia e a sua antropologia deixariam de ser androcêntricas [isto é, centradas exclusivamente no homem].[3]

 

Pela perspectiva da teologia feminista, a mulher, portanto, é também agente na produção de teologia e na vivência atuante no reino de Deus. Em sua origem, a teologia feminista afirma a igualdade dos gêneros, não a supremacia de um sobre o outro. É preciso reconhecer que nem sempre essa lógica é seguida: em algumas ocasiões, a teologia feminista se transforma em afirmação da superioridade da mulher sobre o homem. Quando age assim, contudo, perde de vista sua própria intenção teológica original.

 

Quais são as bases para fazer esta relação entre movimento feminista, reflexão teológica e leitura bíblica?

 

O relato da criação em Gênesis afirma a igualdade de gêneros na medida em que declara que homem e mulher são, ambos, apresentados como imagem e semelhança de Deus. Isso significa dizer que, se Deus cria à sua imagem, então em Deus coexistem os dois gêneros, tanto o masculino como o feminino. Deus não tem sexo, mas Nele se encontram, em plena harmonia, elementos do universo masculino e do universo feminino. Isso parece assustador a princípio, mas é uma característica de Deus revelada abundantemente no texto bíblico. O Espírito de Deus citado em Gn 1.2 é, em hebraico, RUAH, um substantivo feminino. Esse Espírito age como útero da criação, gestando em seu interior todo o universo. É este RUAH de Deus que dá vida ao ser humano (homem e mulher, pois Adão no hebraico significa humanidade), soprando em suas narinas o fôlego da vida. Ora, se é assim, então no ser humano (homem e mulher) também coexistem os princípios masculino e feminino, assim como ocorre em Deus.

Considerando homem e mulher à imagem e semelhança de Deus, também encontramos nele aspectos masculinos e femininos. Há no homem sensibilidade, ternura, cuidado, assim como há na mulher força e racionalidade, tão próprias do varão. A diferença é que a dimensão feminina é mais aguçada na mulher; nela ele tem sua mais plena realização, assim como os aspectos masculinos no varão. São dimensões ontológicas, traços profundos de cada ser humano.[4]

 

Nos profetas, Deus é apresentado com imagens do universo feminino. Deus é aquele que cuida, amamenta seu povo, toma-o em seus braços e o ensina a dar seus passos (cf. Os 11). Deus é como uma mãe perfeita que não se esquece de seus filhos, ainda que as mães humanas venham a fazê-lo (cf. Is 49.15). Ou ainda, de forma mais clara, Deus afirma por meio do profeta que “como uma pessoa que a sua mãe consola, assim eu vos consolarei” (Is 66.13). A misericórdia de Deus, tão claramente afirmada pelos profetas, é compreendida no ambiente judaico como “ter entranhas maternas”. Enfim, a compaixão divina, sua ternura, seu cuidado, sua atenção ao aflito e ao de coração quebrantado, revelam aspectos do universo feminino que é percebido em Deus. Nesse sentido, podemos afirmar que Deus é Pai, mas também é Mãe.

 

E em Jesus, revelação plena de Deus? É certo que Jesus foi um homem, judeu, nascido e criado no interior de uma cultura patriarcal. Contudo, mesmo aí encontramos traços do feminino no Filho de Deus. Em primeiro lugar, Jesus não é um estranho às mulheres. Não as afasta, como faziam os religiosos de seu tempo. Na sociedade da época de Jesus, a mulher era “propriedade do pai até se casar e propriedade do marido após o casamento. Era vista como um objeto adquirido por dinheiro, contrato ou relações sexuais.”[5]. Mas Jesus não as enxerga assim, de tal maneira que as recebe, as cura, as alimenta e as aceita como suas discípulas. O que para nós, hoje, parece algo normal, na época de Cristo era um escândalo. Um homem, solteiro, um rabi, ser acompanhado por mulheres e (mais escandaloso ainda!) ser sustentado financeiramente por elas (cf. Lc 8.1-3) era algo difícil de ser aceito naquela sociedade.

 

Jesus recebe mulheres em sua presença e, numa sociedade patriarcal, fornece a elas valor, honra, cuidado e amor. Ao lado do Mestre, as mulheres também podiam ver a si mesmas como amadas por Deus. Sentiam-se em liberdade para se aproximar daquele homem de Nazaré e prostrar-se diante dele, com lágrimas nos olhos e perfume nas mãos, para ungir seus pés mesmo que, para isso, precisassem invadir um jantar na casa de um fariseu (cf. Lc 7.36-50)

Sem dúvida as mulheres veem em Jesus uma atitude diferente. Nunca ouvem de seus lábios expressões depreciativas, tão frequentes mais tarde nos rabinos. Nunca ouvem dele nenhuma exortação a viver submissas a seus esposos nem ao sistema patriarcal. Não há em Jesus animosidade nem precaução alguma diante delas. Somente respeito, compaixão e uma simpatia desconhecida.[6]

 

Jesus vai mais longe e compara o próprio Deus a uma dona de casa saltitante de alegria porque reencontrou a moeda perdida dentro de casa (cf. Lc 15). As mulheres são, para Jesus, exemplos de fidelidade a Deus e de generosidade e entrega desinteressada. Uma viúva pobre, por exemplo, torna-se padrão para julgar ofertas e ofertantes diante do Templo em Jerusalém (cf. Mc 12.41-44). Os exemplos se multiplicam no Novo Testamento a tal ponto de percebermos, claramente, que, no reino de Deus anunciado por Jesus, as mulheres são tão protagonistas quanto os homens. Em nenhum momento Jesus afasta ou exclui as mulheres de seu convívio, seja em razão de sexo ou por motivos de impureza. “São ‘irmãs’ que pertencem à nova família que Jesus vai formando, e são levadas em conta da mesma forma que os ‘irmãos’. O profeta do reino só admite um discipulado de iguais[7].

 

Por fim, são as mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus. Sobretudo uma em especial: Maria de Magdala, injustamente denominada de prostituta[8], que, na condição de amiga de Jesus é a primeira a ouvir de seus lábios ressurretos o seu nome sendo chamado (cf. Jo 20.11-18).

Ao agir dessa forma com as mulheres, o próprio Jesus revela a face materna de Deus em si mesmo. Jesus é compassivo tal como Deus, e se compadece como uma galinha que deseja ajuntar para si seus pintinhos e protegê-los debaixo de suas asas.

 

No início, a igreja cristã primitiva também era repleta da participação feminina, incluindo a liderança de mulheres. Ao despedir-se dos cristãos de Roma, por exemplo, Paulo fala de Febe, como uma hospitaleira diaconisa; Maria que trabalhou muito pelo apóstolo; de um casal chamados Andrônico e Júnia, ambos apresentados por Paulo como apóstolos[9]; fala de Trifena, Trifosa, Pérside e outras que muito trabalharam no Senhor. Em todos os casos, o termo grego é diaconia, serviço. E em todos os casos não se encontra nenhum tipo de hierarquia que divide homens e mulheres em graus de serviço, posição ou aceitação diante de Deus. Tratando especificamente de divisões de ordem social, econômica e de gênero, Paulo é ainda mais enfático: segundo o apóstolo, todos e todas são filhos e filhas de Deus por meio da fé em Jesus e, exatamente por essa razão, “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3.28), pois todos são um só em Cristo. Parece estranho, portanto, que ainda se desenvolvam, em muitas de nossas igrejas, um rebaixamento da mulher, uma compreensão que faz dela um ser de segunda categoria, uma “auxiliar” do homem-macho, uma “empregada de luxo” do marido. Lamentável e diabólico equívoco que rejeita a lógica do reino de Deus e que sacraliza uma hierarquia estranha à fé em Jesus.

 

É neste sentido de afirmação da igualdade de gênero que a teologia feminista (e o próprio movimento feminista no qual ela surgiu) podem ser considerados necessários à vida da igreja contemporânea. Nessa ótica, não só é possível seguir os ideais feministas e a Bíblia ao mesmo tempo, como é absolutamente imprescindível que se faça assim. Uma leitura da Bíblia que gere hierarquias, submissões que anulam a identidade do ser em nome do autoritarismo do outro, opressões de maridos contra esposas, simplesmente não fazem parte do evangelho de Cristo. Devem ser, portanto, denunciadas e excluídas de nosso convívio de fé. Mesmo na relação marido-mulher, em que pese o texto paulino que é tão comumente mal interpretado, não há espaço para a dominação de um sobre o outro. Pois se é a mulher que, por amor, se submete ao esposo, é este que, igualmente por amor, a ama como Cristo amou a igreja, isto é, dando-se como sacrifício vivo para o seu bem-estar. Afinal, que diferença há entre submeter-se por amor e sacrificar-se por amor? Por isso, numa relação madura entre marido e mulher o que reina é o amor, e não legislações espúrias que querem ganhar a argumentação pela força e pela imposição.

 

Por fim, em tudo isso, resta lembrar que a principal característica que move a igreja deve ser aquela que define o próprio Deus: o amor que tudo crê, tudo suporta, tudo espera e que jamais acaba.



[1] Doutorando em teologia sistemático-pastoral (PUC-RJ); mestre em teologia sistemático-pastoral (PUC-RJ); especialista em Ciências da Religião (FATERJ); bacharel em Teologia (STBSB e UMESP). E-mail: marciosvasc@gmail.com

[2] HIGUET, Etienne A. et al, Teologia e modernidade, p. 207

[3] Ibid., p. 205

[4] ROCHA, Alessandro, Espírito Santo: aspectos de uma pneumatologia solidária à condição humana, p. 54

[5] Ibid., p. 61

[6] PAGOLA, José Antonio, Jesus: aproximação histórica, p. 262

[7] Ibid., p. 276

[8] É preciso perceber que em nenhum momento o Novo Testamento afirma que Maria de Madalena era uma prostituta. A fama de Maria como prostituta foi sendo criada na igreja cristã a partir do século IV d.C., quando, devido a uma leitura equivocada de Gregório de Nissa, Maria foi associada à mulher pega em flagrante adultério no relato do evangelho joanino.

[9] Em algumas traduções do texto grego, o nome Júnia, que é feminino, foi trocado para Júnias (nome masculino). O problema dessa tradução é que, enquanto o nome feminino Júnia era comum no século I d.C., não há indícios no mundo antigo de Júnias como nome masculino.

 

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