TEOLOGIA E EBD: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL?

28/03/2011 16:37

 

Não é raro ocorrer uma situação dessas: o seminarista, encantado com as descobertas estudadas no seminário teológico, encontra-se ouvindo uma aula proferida numa Escola Bíblica Dominical (EBD). Quando isso acontece, às vezes, pode-se sentir a tensão no ar, provocada por duas visões de mundo complementares, mas que nem sempre conseguem dialogar e chegar a um ponto comum. De um lado, há o olhar questionador dos (as) alunos (as) da EBD, desejosos de receberem, de uma vez por todas, a resposta correta às suas dúvidas bíblicas. De outro, existe o anseio do seminarista de corrigir os saberes supostamente incorretos desses companheiros de classe, impondo-lhes sua visão teológica, tida como correta e unívoca. O resultado, inequivocamente, é uma disputa de saberes que não produz nada de bom, nem para a Teologia, nem para a Educação cristã.

 

Creio que há um ponto nevrálgico para essa crise: não se sabe como educar. Pois, para muitos seminaristas, uma vez que a forma de se transmitir as informações teológicas para suas igrejas foi rejeitada (às vezes, devemos reconhecer, com duras penalizações para o próprio seminarista), o único caminho restante é se isolar, reservando para si mesmo todo conhecimento adquirido em salas de aula. Afirma-se que teologia não é para todos; antes, destina-se a uns poucos especialistas no assunto. O povo (plebe?) da igreja não pode receber essas informações, porque não está preparada para isso. Melhor que fiquem distantes das discussões teológicas, estas, sim, reservadas apenas aos iniciados nas artes secretas das dogmáticas cristãs.

 

Peço perdão pelo tom irônico, mas pensar dessa forma restaura, inevitavelmente, a divisão entre leigos e clero, tão constante durante a Idade Média. Afinal, se nosso pensar teológico não diz respeito ao operário, ao estudante, à dona-de-casa, então diz respeito a quem? Apenas aos nossos próprios companheiros teólogos, que se distanciam do povo e de suas questões, respondendo a perguntas que a ninguém mais interessa. Reservamo-nos ao direito de permanecer em nossa torre de marfim, negando qualquer possibilidade de diálogo com o restante da raça humana. Contudo, a Teologia – e especialmente, a teologia de cunho protestante – precisa lidar diretamente com a vida e suas crises. Afirmo com todas as letras: teologia que não diz respeito à vida concreta de pessoas concretas não tem qualquer validade.

 

Mas, então, como fazer com que o discurso teológico e a educação cristã realizada nas nossas igrejas possuam uma relação frutífera e abundante? É isso o que esse texto pretende realizar. Esboçar um projeto educacional para a EBD de modo a unir em diálogo essas duas visões de mundo: a do teólogo e a do educador. Afinal, se “o povo não está preparado para lidar com essas informações”, então é nosso dever, como teólogos e teólogas, levá-los a experimentar essa possibilidade. Como fazer isso?

 

Em primeiro lugar e antes de qualquer coisa, é preciso analisar mais detidamente o que se compreende por educação. Em primeiro lugar, educar é um processo permanente, sem términos, que deve acompanhar o ser humano durante toda sua existência. Sendo assim, não pode haver discursos absolutizadores e dogmáticos sobre determinado assunto, pois toda absolutização repele a condição humana de saber-se incompleto, que é o cerne da educação. Como diz Paulo, “se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber” (I Co 8.2). Em outras palavras, sábio é o que sabe que não sabe; pois o que pensa que sabe ainda não sabe como convém saber.

 

Além disso, é fundamental reconhecer que não há neutralidade no ensino, seja ele religioso ou secular. Toda educação é, necessariamente, um ato político, ainda que seja uma atitude apolítica. Nesse sentido, é essencial analisar a realidade da igreja, bem como suas doutrinas e seus dogmas, para, a partir da educação, criticá-los e, mais importante, dar aos alunos e alunas os subsídios necessários para que eles mesmos realizem tal crítica. Neste aspecto, vale perguntar: o que se deseja com o estudo bíblico apresentado? Manter o status quo eclesiástico ou transformá-lo a partir da renovação da nossa mente (Rm 12)? É preciso perceber que, numa sociedade de classes, há a necessidade de uma educação subversiva. Aliás, este é o exemplo de Jesus. Ao ser questionado sobre a questão do tributo, por exemplo, Cristo responde que é preciso dar a César o que é de César, porém dar a Deus o que é de Deus (Mt 22.21). Normalmente, lêem-se estes versículos com ênfase em nossa atitude para com o Estado. Embora esta seja uma leitura possível, é preciso notar que no tempo em que estas palavras de Jesus são ditas, César reivindica para si mesmo toda a autoridade e soberania, inclusive aquelas que deveriam ser dadas somente a Deus. Neste sentido, a pregação de Jesus é subversiva: seu desejo é colocar as coisas em seus devidos eixos e proporções.

 

Quero apresentar a pergunta novamente: elaborar um estudo bíblico para quem? Para o indivíduo ou para a Igreja-instituição? Se for o primeiro caso, uma reavaliação sobre o indivíduo e sobre quais métodos e conteúdos constituem a melhor maneira de transmitir-lhe a mensagem cristã, é necessária. No segundo caso, entretanto, a linguagem do estudo forçosamente será hierárquica e imutável. Busca-se, neste caso, não a autonomia do (a) aluno (a), mas sim uma espécie de discipulado (que mais se assemelha a uma clonagem) que tem por objetivo moldar o aluno segundo um padrão sacralizado de pensamento pré-estabelecido. Sufoca-se a individualidade em nome da proteção de uma fé que, embora apresente vestes evangélicas, possui em sua essência o mesmo farisaísmo criticado por Cristo.

 

Mas, então, como elaborar um projeto educacional para a EBD que, por um lado, não seja mera repetição de modelos extraídos de outras realidades (que, por isso mesmo, não servem à nossa), e que, por outro lado, guarde em si o caráter bíblico e teológico que deve caracterizar a Igreja de Cristo? Penso que algumas respostas podem ser dadas. O que se segue, porém, não constitui de forma alguma a palavra definitiva sobre o assunto. Não tenho tal pretensão, e não é minha intenção destruir um bezerro de ouro para levantar outro ídolo no lugar. Mas creio firmemente que é preciso pensar sobre este tema, unindo, no processo, oração e reflexão. O modelo para tal proposta é o projeto educacional de Jesus. É sempre Nele, por Ele e para Ele, que a vida cristã ganha seu real sentido. Então, vamos às sugestões.

 

Em primeiro lugar, é preciso saber transformar a catequese cristã (isto é, um ensino para a repetição do conhecimento), comumente praticada na EBD, num exercício de crítica desse saber. E é justamente nesse ponto que a Teologia pode nos auxiliar, pois ela (a teologia) não serve à igreja nem aos seus dogmas. Antes, revisita-os em constante reflexão e crítica, numa verdadeira Teologia reformata semper reformanda. Esta é a vocação da Teologia. Assim, embora nasça da tradição cristã, a teologia tem o dever de confirmar ou negar essa tradição à luz da mensagem do Reino de Deus proclamado por Jesus.

 

Trata-se, aqui, do reconhecimento de que todo e qualquer saber (exceto o saber do próprio Deus) é relativo; não pode abarcar toda a realidade; não esgota nem enquadra as ações de Deus na história. Sendo relativo, é, conseqüentemente, passível de crítica. Portanto, qualquer sacralização de uma fala sobre Deus já torna esta fala um outro deus, que, embora criado pelo homem, torna-se seu juiz mais severo e cruel. E, é preciso enfatizar, este deus requer sacrifícios humanos! Basta lembrar das sagradas inquisições, tanto as passadas como as atuais, nas quais o discurso, controlado por uma elite, era a lei, o juízo e a arma contra o próximo, tudo feito em nome do Príncipe da Paz. A defesa do discurso substituiu a misericórdia divina, gerando sofrimento e morte. Assim, não se serve mais ao Senhor, mas a um deus estranho. Como diz Paul Tillich, “identificar Deus com meu discurso é idolatria!”.

 

Além disso, para tornar a educação da EBD relevante para seus ouvintes, duas atitudes complementares são imprescindíveis: investigar, com o auxílio de diferentes ciências, o contexto sócio-político-religioso-econômico-cultural em que o texto bíblico foi produzido (isto é, perguntar pelo que o texto significava na época em que foi escrito); e, transportar o texto para a realidade do pregador e dos ouvintes, sem rigidez ou literalismos, mas também, sem negligenciar seu sentido expresso pelo seu autor; em outras palavras, perguntar (aos ouvintes e a si mesmo) qual a mensagem do texto para hoje.

 

Aliado a tudo isso, algumas atitudes de ordem mais metodológica devem ser tomadas:

1.      Ênfase em criar no aluno uma autonomia em sua busca por conhecimento: isto implica em não se enxergar como o detentor da verdade única, ou o único que possui a resposta correta para os problemas dos outros. A proposta educacional de Jesus não é esotérica; é exotérica. Isto é, não é reservada a uns poucos iniciados, mas é aberta para os simples e pequeninos, aos quais agradou o Pai revelar seu Reino (Lc 12.32). As parábolas e ensinos de Jesus tinham por objetivo publicar as “coisas ocultas desde a criação do mundo” (Mt 13.35), e é aos pequeninos que o Reino é revelado. Além disso, Jesus não pensava no lugar dos que lhe perguntavam algo; antes, extraía deles mesmos as respostas necessárias.

2.      Enxergar o outro como uma pessoa, e não como uma tela branca a ser pintada: o outro, justamente por ser o outro, é um ser; um sujeito, e não uma coisa. Ser humano implica, necessariamente, em assumir a tarefa, ordenada por Deus, de ser criador de cultura (Gn 2.19). Isto significa que, no seu dia-a-dia, todos os seres humanos constroem um ethos próprio, peculiar e distinto do outro. Sendo assim, a percepção de vida, o conhecimento adquirido pela experiência, e as maneiras distintas de se enxergar o mundo, precisam ser respeitados e utilizados na construção do saber na EBD. Este saber pessoal não pode ser menosprezado nem rejeitado.

3.      Distinguir com clareza para quem o estudo está sendo feito: o que se busca neste ponto é o reconhecimento da própria identidade cultural. Não pode haver comunicação nem educação sem que a cultura onde se ensine e aprende seja assimilada e compreendida.

4.      Realizar uma releitura do texto bíblico de modo que os problemas atuais possam ser analisados a partir de uma mente cristã: é o processo de se criar uma consciência cristã, capaz de enxergar o mundo sob a ótica de Jesus.

5.      Respeitar o pensamento alheio: em outras palavras, não assumir posturas apologéticas no relacionamento com o próximo. É necessário perceber que esta é uma prática que fazemos todo o tempo: o outro sempre é visto sob o padrão estabelecido pela cultura pessoal. Os outros são os “outros” que sempre estão aquém dos padrões estabelecidos por nossa visão de mundo; portanto, estão a priori errados. Suas crenças são tidas como heréticas, bizarras; seu comportamento, como incorreto diante do nomos estabelecido; sua voz, como um ruído capaz de desestruturar o discurso e a comunidade de fé padronizados. O outro é, enfim, demonizado: necessita de libertação através da negação do próprio pensamento em função da aceitação dos dogmas estabelecidos. Este processo de reeducar o outro (leia-se: fazê-lo assumir um discurso que, originalmente, não é o seu), priva-o do direito de ser um ser único; o diferente afronta e assusta, por isso, é rebaixado na escala do pensamento humano. Que interessante! O discurso do outro é recebido sempre com preconceitos e rejeições prévias. Já o nosso discurso tem, a priori, a garantia de ser aceito por Deus, que, ao menos de acordo com nossa convicção, o aceita sem reservas, concorda com ele e até mesmo entra em batalhas por sua defesa. Assim, subversivos são quase que imediatamente taxados de loucos, problemáticos ou, no meio evangélico, feiticeiros (afinal, como freqüentemente se diz, citando o texto bíblico, a rebelião é pecado de feitiçaria). Deste modo, apenas quando a aceitação da crença-padrão substitui a autonomia do pensar, o outro é considerado, pelos donos da voz dominante, como um indivíduo, e aceito como tal (desde que fale baixo e não questione muito).

 

Esta tentativa de elaborar um projeto para a EBD que fale ao povo e que, ao mesmo tempo, dele receba valiosas sugestões; que seja um reflexo do caráter de Jesus (tanto na didática como em seu amor e respeito ao próximo); que gere diálogo criativo e libertador entre teólogos formados (academia) e teólogos não-formados (igreja); e que faça a igreja local crescer de forma saudável e bíblica, é uma tarefa árdua, porém, fundamentalmente importante e necessária.

Marcio Simão de Vasconcellos

Tópico: TEOLOGIA E EBD: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL?

Gostei do texto

Data: 29/03/2011 | De: Marcelo Quirino

Gostei do texto Marcio Simão. O tópico um é crucial nestes tempos. Eis o grande desafio de um professor de EBD, na verdade, um desafio pra ele próprio.

Tenho um site que posto alguns textos cristãos, psicologia pastoral, aconselhamento, etc.

www.marceloquirino.com

Parabéns pelo texto, gostei muito.

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