TEOLOGIA PRÁTICA E TEOLOGIA ACADÊMICA

21/03/2011 16:09

Em ambientes eclesiásticos, existe uma tendência crescente em se separar o pensamento teológico da prática cristã no mundo. De um lado, permanecem os “teóricos”, cuja principal missão seria salvaguardar o conhecimento teológico desenvolvido pela tradição cristã durante os vários séculos da Igreja; enfatiza-se o academicismo (às vezes, exagerado) que tem sua própria linguagem e postura. De outro lado, surgem os “práticos”, cuja principal característica seria a não dependência de teorias “frias e paralisantes”, que, segundo se afirma, seriam verdadeiros empecilhos à evangelização do mundo. Ambos os grupos trocam mútuas acusações, enquanto, pretensiosamente, apresentam-se como defensores da “fé pura neo-testamentária”.

 

Será que não é possível estabelecer um meio termo entre essas duas posturas supostamente antagônicas? Com certeza, sim. Para John Wesley, por exemplo, entre o ministério prático e a teologia acadêmica precisa haver uma relação geradora de vida. Não basta apenas conhecer os dogmas cristãos; é preciso também vivê-los! Em outras palavras, é necessário percorrer um caminho teológico bem definido, a saber:

1) aprender a teologia (isto é, ouvir o que já foi proposto anteriormente);

2) fazer teologia (questionar o que foi ouvido à luz das necessidades atuais); e,

3) em celebração, viver a teologia (isto é, praticar a teologia de maneira a inseri-la no cotidiano da comunidade).  

 

Este processo exige do teólogo o encarnar-se em sua própria cultura, não permitindo que sua linguagem, escondida numa alta torre e isolada do mundo lá fora, sirva apenas para a elaboração de dogmas complexos que, na verdade, nada têm a dizer aos seres humanos concretos que existencialmente experimentam a vida. Em outras palavras, é necessário desenvolver a consciência de que a teologia só tem sentido se responder às questões de nossas comunidades de fé. Como disse Lutero, “o teólogo se faz vivendo!”.

 

Por outro lado, não se deve negar a necessidade dos dogmas cristãos nem da teologia que os sustenta e desenvolve. Dogmas teológicos são, nas palavras de Paul Tillich, a expressão de uma "realidade específica, a realidade da igreja"[1]. Isso quer dizer que os dogmas sinalizam (ou, ao menos, deveriam sinalizar) a vitalidade da igreja em sua relação com o mundo que a cerca. Os dogmas tratam, na verdade, de “expressões profundas e maravilhosas da verdadeira vida da igreja”[2], que relacionam sua piedade, devoção e crenças. São, portanto, vivos em sua dimensão dupla de teoria e praxis.  

 

Somente assim, a teologia cristã pode servir (diaconia) ao mundo que a cerca, ao mesmo tempo em que anuncia a chegada do Reino de Deus. Perguntas sem respostas geram ressentimentos naqueles que as fazem. Se a Igreja não sabe dialogar com a cultura na qual está inserida, e nem responder a seus questionamentos, como poderá anunciar o amor de Deus aos seres humanos? Vale lembrar que os primeiros cristãos não eram motivados em sua missão pela necessidade de se “elaborar conceitos teológicos”; seus escritos eram circunstanciais, e, como tal, respondiam às reais necessidades dos seus ouvintes. Quando a Igreja encarna sua missão dessa maneira – aliás, esta é a maneira de Cristo! – a resposta dos ouvintes da mensagem é positiva: “O que faremos?” (At 2.37). Em outras palavras, diante da mensagem de Jesus como aquele em quem a profecia do Messias se cumpre e aquele em quem a esperança das pessoas repousa, como devemos agir? Ora, essa é a resposta que a evangelização integral deve encontrar. E esta também é a resposta que uma teologia, que integra em sua vivência a teoria e a praxis, irá gerar. Ainda que haja muita discussão sobre a Eucaristia (discussões válidas, com certeza), o fato é que Cristo instituiu seu memorial com coisas simples – o pão e o vinho – extraídas do cotidiano de seus ouvintes. Nada mais longe de seu Espírito do que separar tais elementos da vida pela teorização acerca deles; e nada mais longe da Sua vontade do que impedir que os cristãos, sejam estes teólogos profissionais ou não, pensem sobre eles. Pensar e agir, portanto, são faces da mesma moeda e não devem nunca ser separados um do outro.

 

 

Marcio Simão de Vasconcellos



[1] TILLICH, Paul, História do pensamento cristão, p. 20

[2] Ibid., p. 23

 

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